O incrível renascimento das 2 tempos
Editor
22/07/2013
A revista Motocross Action Magazine de julho deu total destaque na edição para o ressurgimento das motos 2 tempos nas competições de motocross.

Por Giuliano Miranda Barbosa #144

Na capa vem com uma YZ 125 totalmente repaginada e anúncio de testes de uma série de máquinas de 2 tempos: Husqvarna CR144, KTM´s 125SX e 250SX ,TM144, Yamaha YZ250, Service Honda AF 250 e uma híbrida KTM com motor Kawasaki.500cc 2t!
A resposta para a intrigante pergunta da capa “Why now ?” (por que agora?) encontra resposta ao longo das reportagens da edição, que traçam um panorama histórico do esporte desde a introdução das motos 4 tempos de alto giro nas principais competições de motocross.
Como se sabe, seu sucesso se deve às mudanças ocorridas nos regulamentos, com boa dose de influência da Honda, única montadora que sempre se posicionou abertamente contra as 2 tempos junto às organizações oficiais, como a AMA.
.A revista explica que quando as novas regras foram introduzidas, soava razoável permitir à uma 4 tempos competir com o dobro de cilindrada, já que à época essas eram consideradas quase que “um mico”, sem qualquer chance de vencer uma 2 tempos.
Isso ocorreu durante décadas do esporte. No entanto após as alterações nos regulamentos das principais competições ficou provado que as 4t eram capazes de vencer e hoje essa suposta paridade entre as máquinas de 2 e 4 tempos não mais existe com este regulamento, que permaneceu imutável desde essa época à despeito de todo o desenvolvimento tecnológico ocorrido, as principais montadoras japonesas, precisando definir uma única plataforma desenvolvimento no MotoCross por questões orçamentárias, optaram pelas 4t.
Na época, por se tratar de uma novidade, prometendo maior destaque aos novos produtos e com grande influência do “marketing verde”.
De lá pra cá, muitas são as mudanças que vem ocorrendo no esporte, no mercado e até no traçado das pistas para se adequar à nova tecnologia. Infelizmente esses são caminhos tortuosos que conduziram à uma situação de quase falência do esporte, sendo que nos dias atuais há praticamente um consenso sobre a necessidade de reformular conceitos para uma mudança de rumos no esporte, que tem se revelado menos atrativo e dispendioso demais, mesmo para os padrões americanos e europeus.
Os próprios fabricantes tem sentido na pele o “tiro pela culatra” pois vem ocorrendo uma queda acentuada e preocupante no volume de vendas de motos e no mercado off Road.
Há equipes tradicionais de Motocross profissionais nos EUA passando por graves dificuldades financeiras devido aos custos com motores cujas peças móveis, caras e em grande número, necessitam substituição frequente. Dentre outros equívocos, se revelou especialmente grave extinção da categoria 125cc, limitando o acesso dos pilotos das categorias de base a continuarem sua evolução natural no esporte com as conhecidas “school bikes” (125cc 2t)
Além do custo, um problema adicional para o consumidor é a necessidade de se possuir habilidades e ferramentas específicas para realizar a manutenção, que tem contribuído para que garagens do mundo passassem a acumular cada vez mais motos quebradas, com o agravante de que seus donos não encontram um interessado para comprá-las.
Na verdade, o típico consumidor de motos semi novas, mesmo em relação às motos funcionando, não tem como se assegurar que a manutenção fora feita adequadamente e o risco e consequências da quebra se tornam muito altos para arriscar comprá-las e com isso o mercado de usadas se tornou caótico e o mercado off Road como um todo vem encolhendo a cada dia.

Os fatos
James Stewart, o famoso Bubba até meados de 2006 ainda vencia com sua KX 2 tempos até que foi obrigado a mudar para a KXF. Dizem inclusive que com esta moto ele detém o tempo recorde de uma das pistas dos EUA. Ironia do destino, esse mesmo Bubba andando de 450cc foi superado por um piloto privado recentemente, que andava com uma KTM 250 SX 2t. .
Mais recentemente, no final de 2011 devido à conquista antecipada do duplo título no campeonato mundial de motocross, a equipe KTM resolveu comemorar colocando seus pilotos para “brincar” na última etapa com motos KTM de 2 tempos. Infelizmente Cairolli não pode correr devido ao falecimento de sua mãe, mas Roczen correu com uma KTM 125 (não era 150) e fez bonito! Vale a pena assisitr no YouTube o vídeo da última etapa em que o piloto deixa 35 motos full-factory pra trás, e ainda partindo pra cima ainda. Isso ele fez uma moto com a qual nem sequer treina normalmente.
Em 2013 a neozelandesa Courtney Duncan abalou as estruturas ao obter dupla vitória na última etapa do WMX do Lucas Oil Motocross, com uma YZ 125, batendo as pilotos oficiais da Honda e KTM e suas 250F.
O fato de algumas mentes mais “avançadas” pensarem que “2t são coisa do passado”, ocorre em grande parte por desinformação e porque a escolha do consumidor, pelo bem ou pelo mal, se baseia no que vê na TV.
O problema é que quase sempre a realidade de uma corrida profissional não tem nenhuma relação com a realidade desse consumidor cujos fatores a serem considerados nesta escolha deveriam priorizar: a facilidade/custo de manutenção, o prazer da pilotagem e a não necessidade de vencer a qualquer custo. Pelo são fatores que deveriam pesar mais do que “estar na moda”, ou ter a mesma moto que “fulano”.
Hoje o que acontece é que a totalidade dos pilotos de ponta, por razões comerciais, é pago para andar e vender a imagem da moto de 4 tempos, e quando algum piloto privado começa a se destacar com uma 2 tempos, não tarda a receber um patrocínio para andar de 4 tempos. Essa questão do patrocínio é complicada e infelizmente até no Freestyle muitos pilotos tem que andar de 4t por esta razão, e alguns se machucado gravemente...
É triste constatar que no Brasil, onde a grande maioria dos pilotos não pode esbanjar fortunas num hobby, se sintam praticamente forçados a andar de 230cc nacional e quase sempre ainda tem que gastar –muito- para que essas se tornem competitivas, passando a ter problemas com quebras ou “sem opção”, voltem às 230cc nacional após a primeira ou segunda quebra de uma 4t especial.
Fica a pergunta de por que não experimentar por exemplo, uma YZ 125. Sem saberem como seria ou se permitir algum tempo de adaptação, concluem que “é muito difícil de andar de 2t”.... Imagino que a razão dessa convicção é o fato de que os caras que andavam de 2t tempos atrás tinham uma capacidade de pilotagem sobrenatural...cá pra nós né, será que esse é um piloto que se preze?
Tem também a molecada que começa de TTR 125 e depois... não é que “querem” uma CRF 150, eles acham que “precisam” dela porque simplesmente não consegue se adaptar imediatamente a uma 85cc 2t, e logo reclamam aos pais, dizendo que precisam de uma 150 4t de alto giro...depois que ela quebra, caso o pai não seja bem folgado de grana, ficam desanimados. E o pior, provavelmente serão privados pelo resto da vida do prazer de andar com o cabo enrolado numa 85cc/125cc..quem conhece esse prazer sabe do que eu estou falando.
Deveriam ver que quem está andando na frente do brasileiro da categoria 150cc não é uma 150cc ,mas uma Yamaha 85cc 2t. Para os adultos seria recomendável ver uns vídeos de MotoCross de 2002/2003 com os caras emendando uns triplos de 125cc...deixando pra trás as recém lançadas YZF , diga-se de passagem...

As novidades que vem - ou já estão - por aí
Vem muita novidade por aí, e as fábricas europeias já saíram na frente: a BETA está fazendo enorme sucesso com suas motos de enduro e já lançou os modelos 2014; a TM já tem uma 300cc de MotoCross pronta para a recém-criada categoria 2t do mundial do ano que vem; Husqvarna e KTM já tem desenvolvido a tecnologia de injeção direta 2t e aguardam a entrada em vigor das novas normas ambientais europeias.
A este ato ao qual já se antecipou a OSSA, que já possui esta tecnologia em um dos seus modelos de Trial e cuja moto de enduro é um dos modelos mais aguardados dos últimos anos.
Não se sabe até quando as montadoras japonesas ficarão indiferentes às mudanças mas a Kawasaki já se apressou e reformulou totalmente as KX85 e 105 para concorrer com a KTM, que domina atualmente o mercado das mini motos (notadamente nos países onde a Honda CRF 150 foi proibida de competir nas categorias de base por ser considerada um obstáculo ao bom desenvolvimento do esporte e pilotos)

Husqvarna CR 125 / CR 144 - leveza e componentes de ponta com mais baixo custo do mercado: a máquina europeia foi muito elogiada em termos de ciclística, freios e motor, com destaque para o fato de que é uma 125cc que vem com um kit 144cc completo inteiramente grátis!
As KX 85 e 105 receberam modificações no sistema de refrigeração, válvula de escapamento, cabeçote, cilindro, suspensões totalmente ajustáveis, freios, chassis, balança e muitos outros itens. Pode-se dizer que as motos foram totalmente reformuladas, e as novas motos prometem bastante em termos de desempenho e confiabilidade.

As novas Kawasaki KX 85 e KX105 foram totalmente reformuladas
A revista MXA magazine testa também a exclusividade da Service Honda, que produz sob encomenda uma moto com motor 2 tempos de 250cc 0 Km montado sob a estrutura de uma Honda 2013“F” atual, cuja dirigibilidade melhorou muito após a introdução do motor 2 tempos.

CR 250 AF – fabricação especial sob encomenda da Service Honda USA: Segundo a MXA Magazine, a “a moto que a Honda deveria estar produzindo atualmente”

TM 144 e 300 – Modelos de MotoCross da tradicional fornecedora dos potentes motores de kart 2 tempos, que deve se beneficiar com o recém criado campeonato de Motocross 2t
A tecnologia de injeção direta de combustível nos motores 2t já existe e tem sido difundida em motores náuticos, Jet skis e snow móbiles, e está pronta para chegar às motos.
A fabricante espanhola OSSA já a utiliza em sua moto de Trial. Seu modelo de enduro, que incorpora também muitos outros avanços e é um dos modelos mais esperados dos últimos anos. A fábrica já recebeu muitas encomendas mesmo antes da produção em série, em parceira com a Gas Gas.
Essa promissora tecnologia que permite obter ganhos em economia de combustível da ordem de 50% e ainda suavizar a entrega de potência do motor 2 tempos e emitir menos poluentes que uma 4 tempos (para quem não sabe, fabricar uma 4t demanda muito mais do meio ambiente para produção das várias peças móveis adicionais...isso sem falar no consumo considerável de óleo das 4t de alto giro).
Outra novidade pretende chegar pelas mãos da Husqvarna, cujos executivos revelaram que estão desenvolvendo um modelo e uso misto com injeção direta de combustível para rodar até mesmo nas ruas dentro dos padrões de emissões de gases.

Husqvarna concept 300CC injeção direta 2t – projeto desenvolvido e aguardando o momento oportuno para lançamento 
Outro fabricante que detém essa tecnologia é KTM, cujo lançamento de uma 2t com injeção também vem sendo bastante aguardada.
Neste cenário, imagina-se que a concorrência japonesa se incomodará para lançar algo similar no mercado, sob pena de parecer desatualizada tecnologicamente ( da mesma forma como aconteceu com as demais fábricas quando a Yamaha começou a desenvolver a YZF).

OSSA Enduro 250cc – a injeção direta numa das motos mais aguardadas do mercado


Num planeta distante...
Imagine agora um planeta distante, que também esse tão adorado esporte, cuja razão da existência é a diversão e que seria perfeito se os custos não fossem tão elevados.
Nesse planeta imaginário em que nunca existiu motos 2t e o panorama do esporte, como no planeta Terra andava mal das pernas, o público expectador meio desanimado...quando de repente se inventou um novo tipo de motocicleta, a “2 tempos”!! Com motor mais simples, leve, ,barato e fácil de manter, cuja potência atingida com pouco mais da metade da cilindrada de se equiparava à das “tradicionais” 4 tempos. E não bastasse tudo isso, ainda são muito, muito mais divertidas de pilotar, deixando seu piloto e o público em êxtase total.
Requer uma tocada mais apurada não foi problema para os bons pilotos...então vencer com uma delas trás ainda um bônus especial, que é o fato de seu piloto ter seu mérito longe de questionamentos.
Novos regulamentos foram criados, com opções para todos, e cresceu a emoção das disputas. A “novidade” 2 tempos foi um total sucesso de vendas, fazendo o esporte crescer e se popularizar, e isso tudo ainda aumentando a diversão, que é o que o esporte tem de melhor.
A convivência com as 4 tempos foi tranquila, estas continuaram a existir pois sua tocada mais fácil, da qual dependem muitos pilotos, conseguiu manter fidelizados alguns dos antigos clientes. No final, fabricantes, pilotos e o público foram felizes para sempre.

Moral da história
Com as mudanças que vem por aí espero que muitos daqueles que concluem que “é difícil pilotar uma 2t” possam dizer um dia “como tenho prazer de possuir e pilotar uma 2t!”. Falando em mudanças, uma ótima ideia parece ser a existência das categorias 125/250/livre, onde cada um pudesse escolher sua máquina de acordo com suas preferências e convicções. Ficaria criada automaticamente a categoria 2t como opção (uma 125 4t jamais andaria com uma 2t).
Não é novidade pra ninguém que o típico motor tradicional 4t refrigerado a ar é robusto mas não anda, ao passo que os 4t de alto giro modernos andam muito bem à custo de rotações que chegam a 13500 rpm e com os componentes trabalhando no limite, que faz deles uma verdadeira “bomba-relógio”, em que a quebra costuma ser catastrófica, sendo apenas uma questão de tempo. Claro que qualquer moto de competição quebra, mas uma 2 tempos costuma avisar antes, e na pior da hipóteses, nunca seu reparo chega a uma fração do valor de um conserto de uma 4 tempos que “explodiu”.
. Cada qual com sua realidade precisa ponderar as opções e decidir o que é melhor para si. O objetivo desta reportagem é trazer informações e perspectivas que ampliem horizontes para orientar esta escolha, mostrando fatos que muitas vezes passam despercebidos. Muitos podem descobrir que esse planeta distante e imaginário da reportagem não está tão longe assim, na verdade que podem estar morando nele.